
O primeiro acorde da primeira canção deste cd da Theatro de Séraphin ( a primeira gravação sem a guitarra do atual Cascadura, Candido Sotto na formação ) soa, e ali aparece condensado em segundos todo o universo árido, sombrio e pessoal da pós-psicodelia-punk ( é possível isso aí? ) banda de senhores Artur ( voz e guitarra ), Marcos ( baixo e Voz ), Dantas ( Bateria ) e César Vieira ( guitarras ).
Camadas e mais camadas de guitarras climáticas, naquela linha Will Seargent/John Squire/Johnny Marr do indie/guitarhero soteropolitano ( PORRA! ) Cesar, resgatado do limbo para substituir aquele que alguns achavam insubstituível. A personalidade de Vieira está ali, em cada bit da gravação, resgatando aquela sonoridade oitentista inerente à banda e arrastando-a um pouco ( mas só um pouco ) para as proximidades do guitar/indie/pop dos 90. As guitarras negociam e/ou pontuam espaços com as letras “navalha afiada” de Artur Ribeiro e Marcos Rodrigues, o Yin e o Yang, claro/escuro do teatro de sombras seraphínico.
Não é um disco “fácil”. Seu clima meio desértico, lento, sufocante, pode a princípio até assustar almas desavisadas. Mas sua beleza reside exatamente no desafio da aposta cega. Não há concessão, não há dúvida. “Tristeza” é exatamente o que ameaça ser. Angústia e esperança, dor e busca. “Doralice” não é colorida com compreensão ( Escute: Quando Artur canta “Ela abre a janela/Mas Doralice não sabe voar”, eu não percebo nem uma gota de compaixão pelo seu destino. Antes sarcasmo, ironia e até um uma certo humor negro, mas nunca um lamento, não seria isso, garotos? É minha opinião, de qualquer maneira). E assim por diante.
Uma grande estréia, em um Ep com seis grandes drops de agonia sônica. Parabéns, caras!