
Terceiro álbum dos Mutantes, meu predileto. De 1970, a divina comédia ou ando meio desligado retrata uma banda um pouco mais distante de suas origens "tropicalistas", guardando deste movimento apenas o caráter anárquico/iconoclasta que, de qualquer forma, sempre estave nos genes da banda. Mais focado na grande paixão musical de seus três fundadores (rock ´n´ roll, psicodelia, hard rock para os desavisados), as 11 faixas do disco são perfeitas em seu próprio jogo. Da grande sacanagem com Chão de estrelas, clássico da mpb, que rendeu um disco arrebentado, ao vivo, no programa de Flávio Cavalcante e, provavelmente, muitas gargalhadas em Rita, Sergio e Arnaldo, passando pela bandeirosa psicodelia de Ando meio desligado ( com certo parentesco bastardo com outra "ode" lisérgica, Eight Miles High, dos Byrds ), finalizando com a hard-psycho-instrumental Oh! mulher infiel, o lp só tem clássico! Boogie garageiro com pitadas latinas, em Quem tem medo de brincar de amor ( de Roberto e Erasmo Carlos!), o "épico" lisérgico à Beatles em Ave, Lúcifer, o pop-gospel-gregoriano de Haleluia, doo-wop irônico em Hey boy, mais Beatles em Jogo de calçada, blues com uma letra bizarra ( "Meu refrigerador não funciona", hilariante ), e a incrível, e uma das melhores deste disco de gemas, Desculpe, babe.
Sem pedir desculpas a ninguém, é a partir deste trabalho que Os Mutantes tomam em suas mãos o controle absoluto sobre sua musicalidade. Sem desmerecer em nenhum instante os fantásticos dois primeiros discos, eu acho que é neste que eles atingem o seu ápice. E sob os seus próprios termos. A linda arte de capa é uma reprodução de gravura de Gustavo Doré para uma edição de A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Nela, Rita e Sergio observam Arnaldo em uma cova infernal. E pra rolar uma pitada polêmica, como não poderia deixar de ser, na contracapa, Rita, Sergio e Arnaldo semi-nus, deitados em uma cama, em uma sugestão nada sutil de um menage a tróis observados por Liminha (se não me engano ) de pé, ao lado da cama. Ando meio desligado fez uma carreira de sucesso, tendo se classificada em segundo lugar para as finais do FIC, Festival Internacional Da Canção, e gloriosamente aplaudida pelo público.
Esse disco marca também um período de grande ascensão popular para os Mutantes. O ano anterior já havia rendido grandes dividendos para o grupo; " Melhor poderia estragar. Em meados de 69, as coisas corriam bem como nunca para os Mutantes. O prestígio conquistado com as apresentações na Europa, o relativo sucesso do segundo LP, e a repercussão da campanha publicitária da Shell começavam a render fama - e até um certo dinheirinho - para o trio." ( Carlos Calado - A divina comédia dos Mutantes, primeira edição, 1995, pág. 191). Já no ano seguinte, foram convidados para substituir Elis Regina em uma temporada de shows no Olympia, em Paris. Aliás, o nome da banda foi sugerido pelo próprio diretor do teatro, Bruno Coquatrix, encantado com a boa repercussão das apresentações dos Mutantes no ano anterior, na França. Deste segundo disco, até em trilha de novela ( Beto Rockfeller, com a música Não Vá se Perder Poir Aí, que foi trilha de comercial da Shell ) eles entraram.
Dentro desse contexto bastante favorável, os Mutantes deitaram e as pedras rolaram para mais um trabalho inventivo, revolucionário, coeso e anárquico ao mesmo tempo. Se for pra recomenar, eu recomendo todos, mas se for pra escolher um só, A Divina Comédia Ou Ando Meio Desligado é minha dica.
Sergio cebola Martinez