
Meninos e meninas, eu ouvi!
Está perigando este segundo semestre já se tornar histórico pela qualidade de três lançamentos quase simultâneos. Bogary, do Cascadura (já nas bancas), Tristes Trópicos, da Theatro De Séraphin ( fantástico, previsto para breve, e em breve também com entrevista por aqui) e o motivo deste post, Paulinho Oliveira, com o seu primeiro rebento solo Um Bom Motivo. Três discos bem diferentes entre si, mas com uma coisa em comum. Marcam, provavelmente, a total independência de Salvador e seus produtores em relação ao eixo Rio-São Paulo. São três discos com sonoridades distintas, conceitualmente diferentes, de estilos bastante diversos porém, todos dentro do que podemos chamar de puro rock ´n´ roll. Aquele mesmo que chamam de velho, ultrapassado, etc etc etc...Mas tão moderno. Seja pelo peso, emotividade e crueza do Bogary, seja pelo lirismo denso, angustiado e belo do Tristes Trópicos ou pela riqueza orgânica, pura e multifacetada das nove canções de Um Bom Motivo, esse trio, somados a (poucos)trabalhos anteriores de outras bandas feitos por aqui
mesmo, alcançou um novo patamar. Um patamar pelo qual, agora, todo mundo vai ter que se mirar. Novos paradigmas de gravação, de busca, acertos e erros. Um novo (salutar) problema. Acredito firmemente que o rock em salvador, as bandas daqui, nunca deveram um tostão furado a nenhuma grande-coisa-hypada-dos-grandes-centros-de-musica-de-manifesto-definitivo de qualquer lugar. Só não aconteciam. Aí a questão é outra. Não cabe aqui. O que aqui me cabe é botar pilha, sim, pra essas três bolachinhas prateadas de que gostei pra caralho e que, real, e sinceramente, recomendo desde já. Agora é conosco, público, fazermos valer o empenho desta galera não tão nova, mas tão, ou mais, vigorosa, quanto estes new kids on the web. Possuidores daquela chama intensa de vontade, sinceridade, criatividade e ferramentas, físicas, intelectuais e emocionais para nos enviar canções para aprender e sorrir.
Com vocês, Paulinho Oliveira,
obrigado e parabéns, meu velho.
ÓCULOS DE CEBOLA - Paulinho, um histórico sobre sua trajetória musical.
Paulinho Oliveira - Eu considero o início de minha carreira na cena da cidade, a Stone Bull em 92, numa época em que tinha a Úteros Em Fúria, bandas cantando em inglês, brincando de deus, as pessoas sonhavam com carreira internacional, por causa do Sepultura, e Angra e Viper...A banda era eu, Lefê ( Luis Fernando ), Maurício Braga e Fernando Cueg, este hoje “pastor”. Esta banda eu formei mais ou menos nos moldes do Led Zeppelin, que era o que eu queria ser na época...e ainda quero! Então procurei os músicos que, na época eram os melhores, de um circuito colegial de onde veio Emerson Borel, André T, Daniel Boaventura, por exemplo...e, paralelamente, o pessoal da Escola Técnica...Depois, já como um trio (sem Fernando), fomos pros EUA com um tape na mão pra tentar alguma coisa, e acabamos fazendo alguns shows por lá, mas a banda não durou, obviamente...
ODC – Obviamente, por que?
PO – Na verdade, a relação se esgotou, a gente morava junto...
odc – Ninguém se agüentava mais...
PO – Não, não mesmo...na verdade foi muito desgastante...foi muita dureza por lá...a gente, na verdade foi pra estudar na Escola de Música ( MI,Musicians Institute, Hollywood- CA), na verdade uma desculpa pra ir tocar lá...
odc – Conseguiram alguma projeção?
PO- Até conseguimos, no final, já tinhamos retorno, mas a gente não queria mais...EU não queria mais. Tocamos no Roxy (tradicional casa de shows, por onde já passaram Van Halen, Guns n´Roses, Led Zeppelin, Bob Marley...e Stone Bull), o cara da casa já queria marcar outros...mas não rolava mais, passagem de volta já estava comprada e tudo...
odc – Back to Brasil...
PO - Aqui, fazer rock em inglês já não rolava mais, em 95, não tinha saída...a cena já estava bem diferente de quando saímos...quase não tinha mais Úteros, ou já não tinha Borel na banda..tava estranha ( a cena ) na verdade...Dr. Cascadura fazia shows basicamente no interior...tinha pouca popularidade aqui, no início de 95...quem emergia neste momento era a Dois Sapos e Meio e a Dead Billies, que surgiu nessa lacuna, da Úteros e Cascadura...e da Stone Bull também, de certa forma...
odc – Como era o público nesta época?
PO – O primeiro show que fizemos neste retorno, foi com a Dead Billies, no Hotel Pelourinho, para 1200 pessoas!! Coisa que hoje só é possível ou em evento de metal ou show de Pitty...Antigamente, se a gente tocava pra 300 pessoas, era fracasso...
odc – Comparando com hoje...
PO – Hoje está péssimo...não em termos de banda, artisticamente, que está ok, tá bom, boas bandas e tal...como sempre esteve...você pega 93, 94, a gente tocava pra 800 pessoas, mole, hoje em dia 50 pessoas é legal...na época, a gente poderia cancelar um show com esse público!
Odc – O que terá acontecido?
PO – Não sei...acho que talvez tenha se pulverizado muito...muitos “estilos”...o público de metal, por exemplo, ainda é enorme, não tanto quanto naquela época, mas é mais que o do rock...Todo mundo, antes, ia pra qualquer show...o que Nei fala hoje, da Sangria ser uma banda que pode “reunificar” esses públicos, naquela época, a Stone Bull fazia naturalmente...e a galera do metal ia pra Úteros, Cascadura, e vice-versa...isso hoje não existe.
Odc – E o fim da Stone Bull?
PO – No fim, aproveitamos uma popularidade de uma matéria no Fantástico, sobre a MI, recebíamos cartas do Brasil todo, de fãs..foram os melhores momentos, no fim...Fizemos, acho, que o primeiro show de rock do Idearium, 95, Stone Bull e Carpe Bier, o primeiro Julho em Salvador, que foi sensacional, com Dead Billies também, shows lotados...Depois, nos tornamos a banda de apoio de Márcio Melo, ainda desconhecido, promovemos o disco Pop Chumbado, milhares de percussões, Rangel pressionando...enfim, ele queria fazer uma coisa meio pop, meio, rock, meio Bahia...e nem tico e nem taco. E, ninguém sabe disso, cheguei a fazer um projeto com Emerson Borel, em 95, gravamos uma demo com quatro ou cinco músicas, acho que Iure Bonebraker ainda tem isso gravado...era eu e Borel, nas guitarras, Ivan, meu irmão no baixo, Polho cantando, e testamos alguns bateristas...Bonebraker foi ótimo, deveria ter permanecido, mas...ele era muito ocupado e tal...Nei Bahia fazia as letras com a gente...a gente não sabia fazer letras em português, Nei que auxiliava, ele tem letras com Dr. Cascadura, Nicarágua e outras...
Odc – Falar em Dr. Cascadura...e sua entrada na banda?
PO - Fomos, eu, Borel, Ivan, Maurício Braga e Polho para um show do Cascadura em Lençóis, numa tentativa de “seduzir” Maurício pra entrar neste projeto novo, o que acabamos não fazendo por que ficávamos todo o tempo na esbórnia, ninguém queria falar sério sobre nada...Jimmy Page estava lá, na real, vimos nosso ídolo...Bom, no retorno, no início do ano, com a saída de Cândido, dia 5 de Janeiro de 96, fui convidado pra entrar na banda, junto com Maurício Braga. Nesta época, o Dr. Cascadura contava com três guitarras, eu, The Flash e Tony ( ambos atual Demoisele), Alex Pochat, no baixo, Fábio, claro, e Maurício Braga. Fizemos, eu e Fábio, quatro músicas, logo nos primeiros dias, Cantor de Jazz, Doze e Meia...eu já entrei com quatro quase prontas, nenhuma das que tinha feito com Borel...
odc – E o Entre ( disco do ainda Dr. Cascadura, só lançado oficialmente em 99)?
PO – Esse disco foi composto lentamente...mas, quando saiu o #1, que demorou de ser lançado, o Entre já estava quase todo acabado, inclusive Um Bom Motivo, a faixa título de meu disco que vai ser lançado em Novembro, são das seções de Entre, era pra entrar no disco, mas não finalizamos a letra, tem até uma demo dela com o Cascadura...Neste disco eu queria dar uma contribuição a mais pra banda, como eu vinha de formações em que eu era o único guitarrista, ou o principal, eu me concentrei nos teclados, piano, fender rhodes, cítara, orgão, violões...e até guitarra!
Odc – Como você classificaria o Entre?
PO - Na verdade, o Entre deveria ter sido um disco “típico” do Cascadura, já que o posterior ( Vivendo em Grande Estilo ), foi uma retomada de Fábio em um projeto mais pessoal, dele, e no #1 ( primeiro disco, lançado em 97), aquela banda já não mais existia, o Vivendo, já é outra banda, outro nome, agora Cascadura sem o Dr....eu vejo este meu disco, Um Bom Motivo, muito mais como uma sequência do Entre do que o próprio Vivendo, e do Bogary...
Odc – E você ficou no Dr. Cascadura até...
PO – Até 2000..na verdade, esta banda, de que fiz parte, já estava acabando desde 99, por que quando Maurício sai da banda...quando fizemos o Ultrasom ( o banda antes da época), alí fechamos um ciclo...Quando fizemos o lançamento do disco, no teatro Acbeu, já foi com outro baterista, Vandinho, Pochat já estava se tornando um artista solo, com outras aspirações, meio “ aprisionado” na banda, hoje que eu percebo que foi, na verdade, esse o motivo real, mais ou menos como a saída de Tony, que também tinha outras aspirações...aí Duda entra ( Atual Pitty), e passamos a ensaiar no seu estúdio, no final de Itapoã... aí me ficou totalmente inviável ensaiar com os caras, não tinha carro, meu equipamento não podia ficar lá, que eu estava gravando com Paquito, perto de lançar seu disco solo...a logística, então precipitou minha saída da banda mas, é claro, não era ( só ) isso, como os outros também não foi só razões como brigas, etc.
Odc – Seu trabalho solo começa aí?
PO – Só comecei a compor as músicas do meu trabalho solo em 2001, uma nova com Fábio, Amanhã é Outro Dia, e todas as outras com Glauber...este disco foi basicamente composto entre 2001 e 2003...
Odc – Onde você estava neste período?
PO – Logo depois que eu saí do Cascadura, foi uma época que as pessoas tomam conhecimento do trabalho de Paquito, quando ele voltou pro cenário underground, de onde ele estava fora desde os anos 80, fazendo muitos shows no Pelourinho, e paralelo a isso, eu já ia montando meu trabalho. depois gravamos o disco Falso Baiano, em 2001, com Paquito, que foi lançado em 2002.
Odc – O disco novo, Um Bom Motivo.
PO – Bom, eu levei um ano aprontando este disco, são nove músicas...um trabalho solo...
odc – Falar nisso, você acha que aqui existe alguma “resistência” ao trabalho solo de um artista de rock?
PO – Não é só daqui...é no Brasil...eu acho que as pessoas estranham tanto...que elas nem citam o meu trabalho, em entrevistas, em matérias...por causa do hábito de citar sempre banda, é muito estranho isso...eu não sei porque, acho que é falta de referência...não tem um artista de rock, solo, tipo...Peter Frampton...Elton John...Elton john já foi um cara de rock, sim, anos 70...david Bowie, Marc Bolan...o que é uma bobagem, por que rock, na verdade é coisa de artista solo... Chuck Berry, Little Richards, Elvis Presley...essa coisa de bandas é mais uma coisa inglesa...Beatles, Stones...e a responsabilidade do artista, é muito maior...ele que recebe nos peitos, sozinho, todas as críticas e elogios...minha vida toda havia sido com bandas, e eu sempre tive a sensação de que poderia ir mais longe sozinho...
odc – E agora, amarras soltas...
PO – Um Bom Motivo, é um disco pensado como vinil, só nove faixas, 35 minutos, nos moldes dos discos que me formaram...ele possui um conceito, não é só uma coletânea de canções...me disseram pra colocar mais uma ou duas, pra completar dez...por que? E por que não solo? Porque vou inventar um nome de banda só pra lançar o trabalho? É um disco de Exposição, eu estou me despindo...mesmo os parceiros, ao escrever as letras, pensavam que elas seria cantadas por mim...chega a ser quase autobiográfico, elas falam de ( citação de Um Bom Motivo): “Motor ligado, dar partida e seguir, agora é pegar ou largar, pé no acelerador, você vem comigo?, se não vem, eu vou, com ou sem você, agora me dê um bom motivo pra eu te convencer...ou seja, você que me de um bom motivo para eu perder meu tempo pra te convencer a me seguir...é por aí, eu estou solo, e vou seguir com ou sem você...Tudo de que me alimentei ao longo de minha vida está aí exposto...Beatles pra caralho, Byrds, Pink Floyd, Led Zeppelin, Beach Boys, Kiss, Rolling Stones, os menos conhecidos tipo Joe cocker, Thin Lizzy, Edgar Winter, Paul, John e George solos, Roger Waters...quer mais?...e em nove músicas! Goste ou não goste, sou eu exposto...ele foi feito também para me agradar...sem truques técnicos, só usamos instrumentos reais...de mentira só tem um tímpano, que era impraticável pra gravar, um piano, porque não conseguimos nenhum decente pra gravar...mas todo o resto era real, orquestra, sopros, cello, oboé, clarinete, flauta, trompa, guitarras catadas a dedo pela cidade, baixo Hofner, salas específicas pra gravar a bateria, por causa da acústica, violões gravados em uma sala de balé, em banheiro, no corredor, tudo pra conseguir a sonoridade real que a gente buscava...André T tinha uma guitarra de 12 cordas que soava como Jimmy Page, fomos lá atrás dessa guitarra...assim por diante...Já houve época em que os artistas eram mais espontâneos...hoje eles são fabricados, eles se auto fabricam...Pode ser ingênuo falar isso mas... esse disco eu fiz pensando em não fazer truques...então não tem malandragem, é um disco solo mesmo, não vou colocar um nome de banda pra facilitar o processo, são essas nove músicas mesmo, é um trabalho “de verdade” e exposto...é ingênuo pra caralho falar isso mas...alguém tem que fazer isso...estou de saco cheio de ligar a tv e não gostar de nada, de ver as bandas genéricas brasileiras, de bandas inglesas...mesmo porque eu nem gosto dessas bandas (novas) inglesas...
Complementando: Um Bom Motivo está previsto para Novembro. Vale a pena esperar.
Sergio Cebola Martinez